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Medo de apertar ‘enviar’ – Entenda como tomar decisões

O medo de apertar enviar

Esses dias eu pulei de um cliff. Os 10 metros de pedra que separavam o lago dos meus pés faziam parte da beleza natural da primavera em Dalby, na Suécia. A água era fria e o chão era quente, assim como o ar denso entre mim e as outras 20 pessoas que esperavam eu tomar uma decisão.

Enquanto eu pegava impulso dando uns passos pra trás eu tentava me convencer de que sair dali caminhando pedregulhos abaixo seria muito mais doloroso – nos joelhos e na consciência. E só. Às vezes um motivo já é o suficiente. 

Tranquei a respiração e corri. 

Alguns dias depois eu me vi olhando para baixo nos mesmos 10 metros de altura. Só que dessa vez a distância não era feita de pedras e o meu objetivo não era chegar na água. Ao invés disso, o cliff me separava de uma outra pessoa. Era uma daquelas situações clássicas que envolvia a chance de um job. Mas não qualquer um – era aquele job, sabe?

Aquele que faz a água parecer ainda mais cristalina e as pedras ainda mais quentes. O medo de altura se transformou no medo do vão que existia entre mim e quem quer que fosse a moça prestes a ler minha mensagem. O medo de tropeçar virou medo de falar bobagem e as 20 pessoas responsáveis pela pressão psicológica viraram uma só (aqui já não sei mais se era eu ou ela). 

A questão é que, fui percebendo, o pulo é o mesmo. São nessas horas que eu lembro como a inconstância da vida me faz perder a noção de quão alto realmente estamos e quão pequeno é nosso medo de altura. A mensagem podia ser em um email formal, em um whats encabulado ou em uma mensagem de voz crua e honesta. Mas, assim como encontrando uma pedra mais perto da água ou descendo pelos pedregulhos, de nenhuma forma a queda no lago seria a mesma, não é? Acessei todas as minhas mensagens motivacionais acumuladas (obrigada, vo.lar!), tranquei a respiração e corri. Mais uma vez. Um áudio de 2 minutos de primeira, curto e grosso. E só então eu entendi de onde toda minha adrenalina vinha e, o mais importante, para onde ela me levava.

Entendi que coragem nem existe. O que chamamos de coragem é apenas o medo de deixar de fazer por medo. É um medo maior que o outro. Entendi que é isso que nos faz correr, pegar impulso e pular – mas que nada disso tem a ver com o trajeto no ar nem com a queda na água. Depois de perder o chão, nada mais dá arrepios. O contato com a superfície chega em menos de 3 segundos e o mergulho dura ainda menos. Nem deu tempo de pensar sobre isso, o pulo já tinha acontecido e é essa a experiência que vai ficar pra sempre nas minhas histórias sobre a primavera sueca. Uma mensagem. Um email. Uma mensagem de voz de 2 minutos, que seja. Nada disso é tão grande quanto a quantidade de respostas, trocas e oportunidades reais que vêm depois.

Então, do que a gente tem medo? Enquanto eu pulava, não pensei em como eu ia cair. A água parecia estar mais perto, menos gelada e mais convidativa. Não foi nada disso. Minha falta de planejamento me fez cair na diagonal, o que me causou várias marcas e dores na coxa, mão e orelha direita. Doeu. Mas como eu saberia, se tivesse ficado lá em cima? Da mesma forma, não é a resposta o que mais nos assusta. É o clique do enviar, o largar o dedo do áudio, a corrida inicial. O que vem depois é orgânico, fluido e leve – seja isso bom ou não.

O medo nunca foi de altura. O medo se concentra naqueles segundos iniciais onde a decisão é tomada e nem é preciso pensar no resto. Olha que fácil.

Foque a sua energia em correr até a pedra, em posicionar o polegar no botão do áudio ou em cutucar aquele estranho. É menos assustador. O resto só vem. 

Ana Bezzi
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About

Sou movida à poesia, contato humano e muita água. acredito que o que temos de mais valioso é a possibilidade de expressão e demonstrações de amor - e no quanto isso muda a existência no mundo.

1 comment on “Medo de apertar ‘enviar’ – Entenda como tomar decisões

  1. Irado!

    Parabéns pelo texto! Muito lindo e sutil!

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